Recessão gengival: causas, diagnóstico e conduta

A recessão gengival é caracterizada pelo deslocamento apical da margem gengival em relação à junção cemento-esmalte (JCE), resultando na exposição da superfície radicular. 

Trata-se de uma alteração multifatorial, cuja origem raramente está associada a apenas um fator isolado.

Embora seja mais prevalente em adultos, a recessão pode surgir em qualquer faixa etária, principalmente quando existem fatores predisponentes ou desencadeantes.

Entre as principais causas estão:

  • Trauma provocado pela escovação inadequada;
  • Acúmulo de biofilme e doença periodontal;
  • Fenótipo periodontal fino;
  • Movimentações ortodônticas realizadas fora dos limites ósseos;
  • Inserções musculares e freios com tração excessiva;
  • Trauma oclusal associado a outros fatores;
  • Tabagismo;
  • Alterações anatômicas da tábua óssea vestibular.

Na maioria dos casos, a recessão é resultado da combinação desses fatores, tornando indispensável uma avaliação individualizada antes da definição do tratamento.

Classificações da recessão gengival

A classificação da recessão auxilia na estimativa de prognóstico e na escolha da melhor abordagem terapêutica.

Historicamente, a classificação de Miller foi amplamente utilizada, principalmente para prever a possibilidade de recobrimento radicular. 

Entretanto, atualmente, a classificação proposta por Cairo apresenta maior respaldo científico por considerar a perda de inserção clínica interproximal.

Classificação de Cairo

A classificação divide os casos em três categorias:

RT1

Não existe perda de inserção interproximal. A perda de inserção está restrita à superfície vestibular. São os casos com maior previsibilidade para recobrimento radicular completo.

RT2

Existe perda de inserção interproximal, porém em menor magnitude do que a perda vestibular. O prognóstico continua favorável, embora o recobrimento completo nem sempre seja alcançado.

RT3

A perda de inserção interproximal é maior do que a perda vestibular. Nesses casos, a previsibilidade de recobrimento é significativamente reduzida, sendo necessário alinhar expectativas com o paciente.

Essa classificação permite um planejamento mais preciso e facilita a comunicação entre profissionais.

Diagnóstico clínico e anamnese

O sucesso terapêutico depende diretamente de um diagnóstico criterioso. Mais do que identificar a raiz exposta, é necessário compreender a origem da recessão e os fatores que continuam favorecendo sua progressão.

Durante a anamnese, alguns aspectos merecem atenção especial:

  • Queixa principal do paciente;
  • Presença de hipersensibilidade dentinária;
  • Histórico de tratamento periodontal;
  • Técnica e frequência de escovação;
  • Utilização de escovas com cerdas inadequadas;
  • Histórico ortodôntico;
  • Hábitos parafuncionais;
  • Condições sistêmicas e uso de medicamentos;
  • Tabagismo.

No exame clínico, recomenda-se avaliar:

  • Profundidade da recessão;
  • Largura da recessão;
  • Nível de inserção clínica;
  • Presença de sangramento à sondagem;
  • Quantidade de gengiva queratinizada;
  • Fenótipo periodontal;
  • Mobilidade dentária;
  • Presença de lesões cervicais não cariosas;
  • Integridade da junção cemento-esmalte;
  • Controle de biofilme.

Também é importante observar se existem fatores anatômicos que possam comprometer a estabilidade do tecido gengival, como deiscências ósseas e inserções musculares altas.

Manifestações clínicas: além da raiz exposta

Embora a exposição radicular seja o sinal mais evidente, a recessão gengival apresenta diversas manifestações clínicas que impactam diretamente a qualidade de vida do paciente.

Entre elas estão:

Hipersensibilidade dentinária

A exposição dos túbulos dentinários favorece respostas dolorosas diante de estímulos térmicos, químicos ou táteis, tornando atividades simples, como ingerir alimentos frios, bastante desconfortáveis.

Alterações estéticas

Especialmente em dentes anteriores, pequenas recessões já podem comprometer significativamente a harmonia do sorriso, sendo uma das principais motivações para a procura por tratamento.

Maior risco de lesões cervicais

A superfície radicular apresenta menor resistência ao desgaste quando comparada ao esmalte. Isso favorece o surgimento de abrasões, erosões e abfrações.

Maior susceptibilidade à cárie radicular

A exposição do cemento facilita a instalação e progressão de lesões cariosas, principalmente em pacientes idosos ou com controle de biofilme inadequado.

Impacto na saúde periodontal

Quando os fatores etiológicos permanecem ativos, a recessão pode evoluir progressivamente, comprometendo ainda mais o suporte periodontal.

A importância dos exames por imagem no planejamento

Embora o diagnóstico inicial seja essencialmente clínico, os exames de imagem desempenham papel importante em situações específicas.

A tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT), quando bem indicada, permite avaliar detalhes anatômicos impossíveis de serem visualizados apenas pelo exame clínico.

Entre as informações que podem auxiliar o planejamento estão:

  • Espessura da tábua óssea vestibular;
  • Presença de deiscências e fenestrações;
  • Relação entre raízes e estruturas ósseas;
  • Avaliação prévia a procedimentos mucogengivais;
  • Planejamento interdisciplinar com Ortodontia e Implantodontia.

Esse conjunto de informações contribui para decisões clínicas mais seguras e previsíveis.

Protocolo terapêutico baseado em evidências

O tratamento da recessão gengival deve ser direcionado à eliminação dos fatores causais antes de qualquer procedimento cirúrgico.

As diretrizes atuais priorizam uma abordagem individualizada, considerando o diagnóstico, a classificação da recessão, o fenótipo periodontal e as expectativas do paciente.

Controle dos fatores etiológicos

A primeira etapa envolve:

  • Orientação de higiene bucal;
  • Adequação da técnica de escovação;
  • Controle do biofilme;
  • Terapia periodontal quando indicada;
  • Ajuste de fatores traumáticos.

Sem esse controle, qualquer procedimento cirúrgico terá menor previsibilidade.

Tratamento da hipersensibilidade

Em muitos pacientes, agentes dessensibilizantes, vernizes fluoretados e protocolos de remineralização são suficientes para controlar os sintomas quando não há indicação imediata de cirurgia.

Cirurgias de recobrimento radicular

Quando existe indicação estética, funcional ou para controle da sensibilidade, diferentes técnicas podem ser empregadas.

As mais utilizadas incluem:

  • Retalho deslocado coronalmente;
  • Enxerto de tecido conjuntivo subepitelial;
  • Técnicas associadas a biomateriais;
  • Matrizes de colágeno em casos selecionados.

A literatura demonstra que o enxerto conjuntivo associado ao retalho deslocado coronalmente permanece como um dos padrões de referência para obtenção de resultados previsíveis, especialmente em recessões RT1 e RT2.

Acompanhamento longitudinal

Independentemente da técnica utilizada, o acompanhamento periódico é indispensável para monitorar:

  • Estabilidade dos tecidos;
  • Controle do biofilme;
  • Recidivas;
  • Saúde periodontal geral.

A manutenção preventiva continua sendo um dos principais fatores relacionados ao sucesso em longo prazo.

A tecnologia como aliada do diagnóstico periodontal

A evolução da Odontologia tem permitido diagnósticos cada vez mais precisos e planejamentos altamente previsíveis.

A integração entre exame clínico, documentação fotográfica, escaneamento intraoral e exames tridimensionais amplia a capacidade diagnóstica do profissional, especialmente em casos complexos ou multidisciplinares.

Além de favorecer um planejamento mais completo, essa documentação facilita a comunicação com o paciente, melhora a previsibilidade dos procedimentos e contribui para decisões clínicas baseadas em informações objetivas.

Diagnóstico preciso gera tratamentos mais previsíveis

A recessão gengival exige uma abordagem que vai muito além da observação da raiz exposta. 

A correta identificação dos fatores etiológicos, a utilização de classificações atuais, uma anamnese detalhada e exames complementares quando indicados permitem estabelecer um plano terapêutico seguro, previsível e alinhado às melhores evidências científicas.

Para o cirurgião-dentista, contar com exames de imagem de alta qualidade representa um diferencial importante na avaliação periodontal e no planejamento de procedimentos mucogengivais.

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